Combate às facções: “O principal é bloquear as finanças”, diz delegado

A discussão em torno da onda de violência que tem tomado o estado do Ceará é pautada, em grande parte, pelo avanço da atuação de facções criminosas. O assunto vem à tona principalmente após ataques como os registrados durante a última semana, quando 16 ônibus e diversos prédios públicos foram danificados. Segundo o titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos e Cargas (DRFVC) da Polícia Civil, Diego Barreto, a chave para enfrentar esse tipo de ofensiva é atingir essas organizações onde dói mais: no bolso.

“A ideia que construímos é um plano de combate ao crime organizado com objetivo de ir atrás das finanças das facções, dos bens deles, o dinheiro que percorre as contas bancárias daqueles que lavam o dinheiro deles. Enfim, fechar as torneiras que abastecem as facções”, explica. Desse modo, conta, é possível minar a atuação dos membros desses grupos, uma vez que um dos principais fatores que contribuem para seu poder é a força econômica de que dispõem hoje. Isso tem o poder de impedir que esses grupos tenham acesso às drogas e armas de que dispõem hoje em dia, que em grande parte vêm de fora do País.

A partir disso, a ideia é usar as reservas financeiras das organizações contra elas próprias, por meio da criação de um fundo de combate ao crime organizado. Com o fundo, os bens e finanças são penhorados e a quantia resultante é direcionada às forças policiais, de modo a treinar os agentes e investir em compra e desenvolvimento de tecnologia de ponta.
Diego menciona como exemplo o caso do Rio Grande do Sul, que em 2017 bloqueou 67,5 milhões – equivalente a metade do orçamento anual das forças policiais daquele estado. Em Goiás, uma iniciativa semelhante já foi aprovada na Assembleia Legislativa, com um balanço dos resultados obtidos ao longo de 2018, devendo ser apresentado no mês de dezembro.
A estratégia, defende, deve ser posta em prática em paralelo a um esforço por bloquear a comunicação dos membros das facções que estão dentro dos presídios – com aparelhos bloqueadores de sinal de celular, o que tem sido discutido pelo poder público e setores da sociedade nos últimos meses. Ele lembra, no entanto, que isso por si só não será capaz de enfraquecer o crime organizado, que, muitas vezes, encontra outros meios para trocar informações: “Exemplo disso são os presídios federais, onde os presos são isolados, não têm telefone dentro, mas eles não deixam de dar ordem de lá”.
As facções, explica Diego Barreto, surgiram no início da década de 1990, como forma de os criminosos se organizarem dentro dos presídios, até que eles perceberam que isso poderia passar a gerar lucro. A partir daquele momento, passaram a se organizar de modo mais contundente, inclusive no Ceará.

Prisões
Diego defende que é preciso enfrentar o crime com muito trabalho de inteligência da polícia, e que no Ceará isso tem resultado em números positivos: segundo ele, entre 2014 e 2017 um total de 13 dos 16 criminosos mais procurados do Estado foram capturados – além da prisão de um dos chefes do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, ocorrida em território cearense.

O delegado avalia que é preciso, também, que se faça uma modernização de todo o sistema, envolvendo Polícia, sistema carcerário, Poder Judiciário e Ministério Público. Ele destaca, ainda, que as ferramentas do poder público para pulverizar a atuação de grupos criminosos não se limitam a esse universo: “Precisamos dessas instituições com investimento cada vez maior na área social, dar oportunidade aos jovens no esporte, na cultura, para evitar que organizações consigam essa mão de obra barata”, diz ele, lembrando que crianças e adolescentes de 10 a 17 anos são os mais vulneráveis a serem absorvidos pelo mundo do crime.

Diego Barreto já comandou as delegacias municipais de Santana do Acaraú, Acaraú e Itapajé, além da Delegacia Regional de Itapipoca. Atualmente, além de titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos e Cargas, é pré-candidato a deputado estadual pelo PTB.

Com informações: O Estado/Ce

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