Febre coreana no Cumbuco acaba e outras nacionalidades ganham espaço

O tratamento acolhedor de Estela Jee, 56, já virou uma marca registrada do restaurante Doldam, administrado por ela e localizado na praia do Cumbuco, em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Ela faz parte do grupo reduzido de comerciantes coreanos que resistem no local. Entre 2012 e 2016, o comércio da região viu de perto a efervescência da abertura de estabelecimentos impulsionada pela presença de trabalhadores que vieram do outro lado do mundo para contribuir com a construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Depois de inaugurada, muitos colaboradores voltaram para a Coreia e o que se vê, hoje, são resquícios desse período.

Estela conta que eram cerca de 4 mil sul-coreanos na região entre Caucaia e São Gonçalo do Amarante, município onde está localizada a CSP. Ela estima que, à época, a praia do Cumbuco contava com uma média de 40 restaurantes coreanos para atender à demanda de alimentação desses funcionários. Joint-venture formada pela Vale e as empresas sul-coreanas Dongkuk e Posco, a CSP necessitou dessa mão-de-obra para a construção da primeira usina siderúrgica integrada da região Nordeste. Com isso, comerciantes da Coreia que residiam em vários lugares, inclusive em outros estados brasileiros, transformaram Cumbuco em uma praia repleta de serviços voltados a essa clientela, como bares, pousadas, depósitos de materiais e até mesmo igrejas.

A variedade de negócios que surgiu a partir daí é confirmada por Rômulo Alexandre Soares, presidente do Conselho de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC). Co-fundador da plataforma Ceará Global, ele afirma que a CSP é um dos grandes indutores do investimento coreano no Ceará. “Muitas empresas coreanas vieram para cá impulsionadas pela Companhia. Nem todas trabalham lá dentro, algumas vieram, por exemplo, como restaurantes, para atender a uma demanda que surgiu a partir dos funcionários que trabalhavam no complexo”, avalia.

Hoje, ainda é possível ver lembranças desse boom coreano no lugar. Vários estabelecimentos, agora disponíveis para aluguel, permanecem com placas repletas de ideogramas, indecifráveis para nativos e quem mais desconhece a língua. O garçom Paulo Batista, que vive no lugar há mais de uma década, lembra bem da ebulição econômica desse período. Ele conta que a crise enfrentada em meados de 2012 deu lugar à esperança das novas trocas comerciais que passaram a existir no local. “Foi o que movimentou o comércio no Cumbuco. O comércio só cresceu, principalmente na baixa estação. A fatia (de participação) ficou em 70% só de coreanos aqui e em regiões próximas”, avalia.

Mesmo com a presença reduzida de conterrâneos no local, Estela diz que pretende permanecer na região. Além do Doldam, que oferece almoço e jantar, ela também administra outro restaurante que trabalha apenas com refeições noturnas. A sul-coreana também investe em atrações, como eventos culturais de K-Pop voltados aos jovens da região. Questionada sobre planos de expansão, ela admite que projeta uma nova unidade em Fortaleza.

O projeto não é uma tentativa de apresentar a culinária sul-coreana aos fortalezenses, pois, atualmente, o Doldam alimenta não só a pouca presença coreana do Cumbuco, mas também consumidores de Fortaleza que se adaptaram ao tempero da culinária do país de Estela. O serviço de entrega na Capital é feito por Leano Pontes, que conhece a chef de cozinha e administradora desde a época em que ele trabalhou na CSP como motorista do vice-presidente da Posco. Ele também ficava encarregado de buscar as refeições no restaurante para os funcionários da Companhia. Apesar das dificuldades de comunicação que ele precisou superar durante os três anos em que trabalhou no lugar, ele guarda boas recordações: “Foi uma das melhores empresas onde eu já trabalhei na minha vida”.

 

Com informações: O Povo

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