Médico e prefeito de Uruburetama não possui especialidade em ginecologia, dizem entidades

José Hilson de Paiva, médico e prefeito de Uruburetama acusado de abuso sexual contra várias pacientes, não possui registro de especialidade em ginecologia e obstetrícia no Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec-CE), não cursou residência médica na especialidade, não possui título de especialista reconhecido pela Associação Médica Brasileira (AMB) e nunca foi associado à Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). As informações são da Sociedade Cearense de Ginecologia de Obstetrícia (Socego) e da Cooperativa dos Ginecologistas e Obstetras do Ceará (Coopego).

O médico generalista atua como ginecologista tanto em Uruburetama, localizado a 110 km de Fortaleza, como no município de Cruz. Denúncia do Sistema Verdes Mares revelou que o homem, de 70 anos, teria praticado abusos contra, pelo menos, 17 mulheres, nas últimas décadas.

De acordo com o presidente do Cremec-CE, Helvécio Neves Feitosa, legalmente, quem se forma em Medicina pode exercer qualquer especialidade, mas não pode se autointitular como especialista. Ainda conforme o representante, sempre que um caso que fere a ética médica se torna público, o Conselho começa uma investigação do profissional envolvido.

Afastamento

O presidente não quis se pronunciar sobre o caso do prefeito porque os trâmites de apuração correm em sigilo. Em média, a decisão de uma investigação é tomada em um ou dois anos; contudo, em casos de maior gravidade para a população e para a Medicina, Helvécio conta que existe a possibilidade de ele ser afastado antes do processo ser concluído, por meio da chamada “interdição ética”.

A Socego emitiu uma nota de repúdio nesta segunda-feira (15), reconhecendo como “inadmissível” a utilização das prerrogativas profissionais de médico ginecologista para perpetrar atos de violência sexual. Além do uso da autoridade profissional, a Sociedade considera que o caso foi marcado pela violência de gênero, cuja ocorrência está relacionada à conjugação de serem mulheres, além de pacientes, “anulando-as como sujeitos de direitos”, particularmente dos direitos sexuais.

Mobilização

“A violência sexual tem efeitos devastadores nas esferas física, mental e social das vítimas. Além dos prejuízos à saúde, atinge toda a sociedade ao colocar o medo do estupro como um elemento cotidiano da vida das mulheres, podendo prejudicar seu pleno potencial de desenvolvimento e sua liberdade”, declara a Sociedade, em conjunto com a Coopego.

As duas entidades entendem que a divulgação dos vídeos, gravados pelo próprio acusado, conclama os médicos e as entidades de representação profissional a se mobilizarem em torno dessa questão, exigindo a execução das “medidas legais cabíveis”.

Mulher de prefeito recepcionava pacientes em consultório onde abusos ocorreram, contam vítimas

No consultório anexo à residência do prefeito Hilson de Paiva, onde o médico atendia as pacientes de Uruburetama que o acusam de abusos sexuais, a esposa Maria das Graças de Paiva sempre estava por perto. “A recepcionista era a mulher dele”, conta uma vítima do médico que foi abusada e filmada durante consulta de rotina há nove anos. A paciente relata que ele passou pela esposa e trancou a porta. “Eu falei assim: ‘por que você trancou a porta?’. Aí ele disse: ‘pra não ficar um entra e sai”, relata a vítima. Nesse dia, o médico gravou a mulher, que está de costas na maca, enquanto com as mãos e com o corpo realiza abusos contra ela.

Nos vários depoimentos ouvidos pela reportagem, a presença de Maria das Graças é uma constante.

Outra paciente confirma que, mesmo adolescente, ficava sozinha no consultório. “A minha mãe ficava do lado de fora, com a esposa dele”. E, nos exames, ele se aproveitava da paciente.

Também em Cruz, cidade onde Hilson de Paiva trabalhou entre 2007 e 2013 como clínico, há confirmação da proximidade da esposa do médico durante os supostos exames. “Todas as vezes a esposa ficava”, conta outra paciente, abusada há 7 anos. Ela relata que Maria das Graças tinha o hábito de assistir aos procedimentos do marido. “Eu sabia que ele tinha problemas de saúde e que a esposa acompanhava”. Mas um dos atendimentos foi diferente. “Da segunda vez, a esposa não ficou. Eu achei algo estranho. Eu comecei a ver ele tremer”.

Nesse exame traumático, a vítima conta que estava em posição ginecológica quando percebeu que o homem estava com o órgão genital de fora tentando penetrá-la. Depois disso, a mulher conta que saiu correndo do consultório mas, na recepção, teve que controlar as emoções na frente de Maria das Graças. “Eu quis gritar, dizer pra ela a verdade, mas eu não tive coragem, eu não fiquei em mim. Aí ela disse: ‘cê demorou demais’. Eu falei assim: ‘é culpa do seu marido porque eu não quero fazer esse tratamento”.

Depois disso, a paciente não voltou ao consultório e enfrenta, até hoje, problemas psicológicos.

Esposa já foi condenada por dois crimes, mas segue em liberdade

A figura da primeira-dama divide opinião entre as vítimas. No âmbito político, todas são unânimes com relação à força e influência de Maria das Graças, que foi prefeita por dois mandatos, em 1996 e 2000. Ela responde, até hoje, dois processos. No criminal, foi condenada por dispensa de licitação ilegal e apropriação indébita previdenciária em pelo menos 13 situações diferentes. Em primeira instância, teve a pena fixada em 17 anos e 4 meses de reclusão. A segunda instância reduziu a sentença para 14 anos e 4 meses. Paulo Quezado, o advogado de Maria das Graças, afirma que ingressou com recurso no Superior Tribunal de Justiça e aguarda resultado.

O Ministério Público já pediu cumprimento imediato da pena que foi negado pelo Tribunal de Justiça. Mesmo condenada em segunda instância, ela permanece em liberdade.

Além disso, Maria das Graças também foi condenada na esfera cível pelo crime de improbidade administrativa por acusação de desvio de recursos para projeto de alfabetização. Foi sentenciada pela 2ª Vara de Uruburetama a pagar, ao Município, R$ 19.362,81. Ela recorreu e a 7ª Câmara Cível julgou a acusação improcedente e ela foi inocentada.

Com relação aos casos de abuso do marido, o advogado garante que ela “não tem qualquer participação do delituoso”.

Para as vítimas, ela deveria “abrir o olho”. Se inocente, é o momento de “ajudar as mulheres”, pede uma paciente.

Vítimas relatam ameaças de aliados políticos de médico

Não bastasse o atendimento constrangedor, abusivo e criminoso pelo qual as vítimas do médico e atual prefeito de Uruburetama passaram, as mulheres violentadas enfrentam, agora, o drama da perseguição. Desde que elas revelaram em entrevista detalhes dos assédios sexuais praticados por José Hilson de Paiva, de 70 anos, aliados partidários ameaçam a integridade física das ex-pacientes do suspeito.

“Fui ameaçada por alguns vereadores que estão do lado dele, porque estão dizendo que tudo que aconteceu é mentira, mas não é”, revela a mulher, que pediu para não ser identificada. Ela procurou ajuda médica após sangramentos no canal vaginal, mas foi surpreendida com a conduta infeliz do profissional. “Ele pegou nos meus seios, nas minhas partes e mandou eu abrir bastante as pernas”.

Além das intimidações feitas por integrantes da Câmara Municipal, a vítima amarga o sofrimento de ver a sua imagem ser motivo de chacota nas ruas e até dentro de unidades de saúde. “Muita gente fica ‘mangando’, apontando, é muita perseguição. Se venho para uma consulta, tem horas que ninguém me atende”, lamenta, suplicando para um desfecho deste capítulo “porque tenho filhos e esposo”.

Outra personagem, de identidade preservada, viu mudar a movimentação da rua onde mora depois da denúncia, em Uruburetama. Segundo conta, o irmão chegou em casa dizendo que havia um veículo de aliados do prefeito parado na esquina, causando estranhamento em sua família, já que isso não é um fato comum no entorno da residência.

O episódio aconteceu na última quinta-feira (11), mesmo dia em que a equipe de reportagem do Sistema Verdes Mares (SVM) esteve no Município para apurar os indícios contra o prefeito José Hilson de Paiva. “O carro passou 15 minutos parado com gente dentro. Ninguém saiu e depois, o veículo partiu”, diz. Para ela, os supostos parceiros do chefe do Executivo municipal estariam “vigiando” os seus passos.

Investigações

No dia seguinte ao escândalo provocado por novas denúncias de crimes sexuais atribuídas ao prefeito, a Polícia Civil do Ceará (PCCE) iniciou investigações para apurar os fatos. O gestor é suspeito de abusos sexuais desde a década de 1980, embora nunca tenha sido punido pela prática. O Diário do Nordeste acompanha este caso desde 1994, quando duas donas de casa acusaram o prefeito de assédio sexual.

A titular da Delegacia Municipal de Uruburetama, Rogéria de Sousa, confirmou que instaurou, ontem, um Inquérito Policial mediante portaria para analisar o material que estava em posse do Ministério Público do Ceará (MPCE), que contém 63 vídeos com cenas de supostos crimes sexuais praticados.

“Tanto o inquérito aqui em Uruburetama como em Cruz já foram instaurados. Nós vamos analisar as filmagens por completo, não só o que foi divulgado na mídia, e vamos ouvir mais vítimas. Vamos ouvir as vítimas que já se disponibilizaram a falar e poderemos encontrar mais vítimas”, afirma.

A delegada irá se reunir com o promotor de Justiça do Município para traçar as estratégias de investigação acerca das novas denúncias. O MPCE já abriu investigação em Fortaleza sobre o caso. Duas vítimas se apresentaram à Delegacia de Cruz para prestar depoimento, mas nenhuma foi à Unidade de Uruburetama durante o dia de ontem.

Enquanto o caso segue em busca de uma solução, outra mulher, vítima do médico, recorre à espiritualidade para superar o que ela chama de “coisa lamentável”. “Eu estou fugindo de tudo isso, porque eu passo muito mal. Passo o dia todo deitada, a cabeça dando voltas, sem equilíbrio emocional para nada. Agora mesmo, eu estava falando com Deus, pedindo forças, porque o que eu mais quero é esquecer dessa coisa lamentável que acabou com a minha cabeça”, lamenta.

 

Com informações: Diário do Nordeste

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