Nem bom nem ruim, Guedes foi inocente – Por Érico Firmo

A audiência com o ministro Paulo Guedes na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) transcorria previsível. Era tensa, porque discussão sobre aposentadoria é assim no mundo todo. Era óbvio que haveria confusão, bate-boca. Tudo dentro do script. Inclusive, Guedes conseguiu tirar proveito dos confrontos com a oposição. Questionado por petistas, respondeu com dureza. Apontou o que considera que deixou de ser feito durante os 13 anos de administração do partido (ele citou 18, 5 a mais do que a realidade). Serviu para animar a base aliada e atrair simpatias à proposta da parte dos antipetistas – não são poucos.

A sessão foi longa, extenuante. Também previsível. Guedes, esquentado que é, foi político e demonstrou habilidade durante algum tempo. Salientou a soberania de decidir do parlamento. Pediu que não fiquem ressentimentos, a despeito do embate. Mas caiu na mais boba casca de banana.

Pouco antes do desfecho tragicômico, Guedes começou a errar o tom. “Quem acha que a reforma não é necessária é caso de internamento”. Deputados se incomodaram. Mesmo os que não são de oposição. Afinal, eles têm direito a ser a favor ou contra propostas, sem terem de se submeter a tratamento. A oposição cobrou que Guedes retirasse a fala. Ali os nervos foram sendo minados. Ele respondeu, irritado: “Não estou dizendo que tem de internar quem não aprovar essa reforma”.

Passou algum tempo, e veio a provocação. Rasteira e boba. Partiu do filho de José Dirceu, o deputado Zeca Dirceu (PT-PR). “O senhor é tigrão com aposentados e trabalhadores, mas é Tchutchuca quando mexe com a turma mais privilegiada desse país”. Não é coisa que se diga a um ministro. É desrespeitoso, debochado. Mas Guedes precisaria estar preparado para isso. O que a oposição queria era mesmo desestabilizá-lo. Conseguiu.

“Eu não vim aqui para ser desrespeitado, não. (…) Tchutchuca é a mãe, é a avó. Respeita as pessoas. (…) Isso é ofensa. Eu respeito quem me respeita”, respondeu o ministro no meio de tumulto.

Não importa se você ou eu achamos que o ministro foi bem ou mal. Isso é o de menos. Importa se ele conseguiu atrair apoio ou aumentar a resistência à reforma. Essa é a questão. Do ponto de vista técnico, a coisa praticamente não mudou. Há pontos que são foco de resistência e alguns praticamente já caíram. No mais, quem era contra segue muito contra. Já quem pode ser a favor é caso mais complicado. Eles poderão votar pela reforma, mas pesa para eles a política. Desrespeitoso que tenha sido, não gostam que ministro responda a um dos pares com: “É a mãe!”

Para aprovar a reforma da Previdência, o governo Jair Bolsonaro precisará de sangue frio. Guedes manteve quase o tempo todo. Mas basta o deslize por um instante. Caiu numa provocação barata de forma inocente.

 

Com informações: Érico Firmo

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